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História de Sucesso

A Quebrar Barreiras: Como os “Homens Campeões” Estão a Redefinir a Masculinidade e a Salvar Vidas em Moçambique

Nos mercados de Pemba, nas oficinas de Ancuabe e nas igrejas de Montepuez, uma revolução silenciosa está a acontecer. Homens que antes enfrentavam o HIV em silêncio estão agora a quebrar barreiras culturais, a partilhar as suas histórias e a tornar-se faróis de esperança nas suas comunidades.

Desafiando Normas Culturais

Em Moçambique, as conceções tradicionais de masculinidade associam ser homem a invulnerabilidade, força e ausência de dor. Este enquadramento cultural tem gerado um silêncio devastador em torno do HIV, levando inúmeros homens a enfrentarem o diagnóstico sozinhos, escondendo a condição da família e evitando os cuidados de saúde de que tanto necessitam.

Mas na província de Cabo Delgado, esta narrativa está a mudar. Através da abordagem inovadora dos Homens Campeões, implementada no âmbito do Projecto Victória com o apoio do PEPFAR via CDC, e em coordenação com o Ministério da Saúde (MISAU), a Direção Provincial de Saúde e a Fundação Ariel Glaser, os homens estão a descobrir que a verdadeira força está em cuidarem de si e dos outros.

De Pacientes a Campeões

Desde maio de 2021, esta estratégia transformadora tem-se enraizado em cinco distritos: cidade de Pemba, Ancuabe, Chiúre, Montepuez e Namuno. A abordagem é simples, mas profundamente eficaz: identificar homens que vivem com HIV e que estão a gerir com sucesso o seu tratamento, formá-los como pares apoiadores e capacitá-los para alcançarem outros homens onde estes se encontram — nos seus ambientes quotidianos.

Trinta e cinco profissionais de saúde de 24 unidades sanitárias foram treinados para implementar este modelo de apoio entre pares. Estes profissionais identificaram e orientaram homens que, além de terem alcançado sucesso no tratamento, demonstraram vontade e coragem para ajudar outros a enfrentar desafios semelhantes.

Um Encontro que Mudou uma Vida

A história de Buanachaque Bau exemplifica o poder desta abordagem. O jovem de 34 anos, residente no bairro Eduardo Mondlane, nunca tinha priorizado a sua saúde até participar, por simples curiosidade, numa sessão de diálogo comunitário.

“Fui apenas para ouvir, sem qualquer expectativa”, recorda Buanachaque. “Mas algo mexeu comigo. Percebi que nunca tinha levado a minha saúde a sério.”

Esse momento de autorreflexão levou-o a realizar um teste de HIV — e o resultado positivo fez com que, inicialmente, sentisse que o mundo desabava. No entanto, nesse mesmo dia transformador, o Homem Campeão Duarte Tiago tornou-se o seu ponto de apoio, oferecendo não apenas informação, mas um verdadeiro vínculo humano e suporte emocional.

“Senti como se o chão desaparecesse. Achei que tinha chegado ao fim”, lembra. “Mas o Duarte foi a minha salvação. Recebi apoio, alguém com quem falar — deu-me força para seguir em frente.”

O Efeito Multiplicador do Cuidado

Com a orientação de Duarte e o apoio da equipa de saúde, Buanachaque iniciou o tratamento antirretroviral a 28 de setembro de 2024. O Homem Campeão não se limitou a esclarecer dúvidas; acompanhou-o em cada passo — levou-o à unidade sanitária, apoiou-o nas colheitas de sangue e esteve ao seu lado nas consultas.

A transformação ultrapassou o próprio Buanachaque. Com nova coragem, contou à esposa sobre o diagnóstico. Ela aceitou fazer o teste, recebeu resultado negativo e iniciou profilaxia antirretroviral para prevenção.

“Ver aquele casal a cuidar um do outro foi extremamente poderoso”, reflete Duarte, emocionado. “Perceberam que o amor também é proteção.”

Seis meses depois, Buanachaque alcançou uma carga viral indetetável — um marco clínico que representa uma vitória não só para ele, mas também para a sua família e para toda a comunidade.

A Redefinir o Significado de Ser Homem

Hoje, Buanachaque encarna um novo modelo de masculinidade:
“Sinto-me vivo. Tomo os meus comprimidos todos os dias, à mesma hora, como parte da rotina. Acompanho a minha esposa às consultas e ajudo outros homens da minha comunidade que têm medo de procurar apoio. Ser homem também é cuidar de si, da sua parceira e da sua família.”

A sua transformação — de alguém que negligenciava a saúde a defensor comunitário — demonstra como a abordagem dos Homens Campeões cria efeitos multiplicadores de mudança positiva.

Impacto Mensurável

Os números contam uma história impressionante de sucesso. Atualmente, 30 Homens Campeões treinados, distribuídos pelas unidades sanitárias apoiadas em Cabo Delgado, prestam apoio a 1.892 homens que vivem com HIV. Desde o início do programa, 4.621 homens já beneficiaram deste modelo de apoio entre pares, e quase metade alcançou carga viral indetetável.

Os Homens Campeões oferecem acompanhamento integral, incluindo sessões de aconselhamento, apoio à adesão, educação para prevenção positiva e rastreio de contactos. O seu trabalho demonstra uma verdade fundamental: com o sistema de apoio certo, procurar cuidados torna-se um ato de força e não de fraqueza.

Um Novo Caminho a Seguir

A abordagem dos Homens Campeões representa mais do que uma intervenção de saúde pública — é uma transformação cultural. Ao capacitar homens para apoiarem outros homens, o programa está a desconstruir estereótipos prejudiciais de masculinidade, ao mesmo tempo que cria soluções sustentáveis e comunitárias para os cuidados e prevenção do HIV.

Através do trabalho da Fundação Ariel Glaser e em parceria com o PEPFAR, CDC e o sistema nacional de saúde, este modelo inovador está a provar que, quando os homens abraçam a saúde como responsabilidade — e não como vulnerabilidade — comunidades inteiras se tornam mais saudáveis, mais conscientes e repletas de esperança.

Em Cabo Delgado, homens comuns estão a tornar-se campeões extraordinários — uma conversa, um teste e uma vida de cada vez.